terça-feira, 26 de novembro de 2019

Reprovação e jogo da glória - Cair na casa do inferno e voltar ao ponto de partida


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Reprovação, sim ou não?
Colocada esta pergunta num inquérito de rua, atrevo-me a dizer que o sim ganha por goleada. Porquê? Porque «a favor das reprovações basta o senso comum e a ignorância».*
O senso comum refugia-se na tradição, na tradição que sustenta a escola tal como tem sido vivida pela generalidade dos que têm a sorte ou o azar de a viver. E pese embora já não ser aquilo que era, a tradição continua a ter muita força, sobretudo quando de mãos dadas com a ignorância que não questiona, ou faz apenas a pergunta para a qual não pode haver outra resposta.
– “No fim do ano, um aluno não sabe. Passa ou não passa?” – Pergunta Rui Rio, em linha com a observação de uma deputada do seu partido [Ver figura]. Esperava outra pergunta de alguém com a ambição de chefiar o governo do meu país, por exemplo: no fim do ano, um aluno não sabe. Que é preciso fazer para que não reprove?
A questão não está no sim ou não à reprovação, mas no que fazer para que a reprovação acabe. Mas para isso é preciso “pensar fora da caixa” – como está na moda dizer –, estar disponível para olhar o mundo de fora dele, disposto, também, a olhar outros mundos possíveis.
O aluno passa ou não passa? Não, não passa. O que passa são os anos por ele! Cabe-nos garantir que no decurso do tempo que por ele passa, ele aprenda o que tem para aprender.
Vejo, nesta matéria, a escola a funcionar como um Jogo da Glória: caímos na casa do inferno e voltamos ao ponto de partida. Aluno que reprova não fica apenas retido, volta atrás no percurso para fazer tudo de novo, tenha aprendido alguma coisa ou coisa nenhuma, e sem ter quem lhe garanta não voltar a cair na casa do inferno. Porque a garantia do sucesso está, por tradição, apenas nas mãos do aluno – afinal, é nas suas mãos que estão os dados que fazem andar os pinos. E isso é, a cada nova partida, um inferno. 
Como qualquer professor, também me perguntei: reprovo ou não este aluno? Até que me ouvi a dizer: vou reprová-lo para quê? Trabalhava numa escola de lugar único, nos longínquos anos setenta: um professor quatro classes. E ao ensaiar a conversa a ter com aquela criança [da 1ª classe], dou-me conta de que iríamos viver juntos outra vez, quer ela reprovasse quer não. Não tinha como fazer dela o problema de outro. Então, olhando-a uma vez mais, ouço-a a juntar as letras muito devagarinho, a perder a memória do que tinha lido antes. Faltava-lhe automatismos na leitura, é certo, mas, surpreendentemente [talvez porque mais atenta ao que me ouvia dizer aos "grandes" do que à tarefa que tinha em mãos], sabia o que alguns da 4ª classe não sabiam sobre Viriato e as lutas que este travou com os romanos, que D. Afonso Henriques foi o 1º rei de Portugal, que o rio que passa em Chaves é o Tâmega, que o comboio passava por Vidago, Vila Pouca de Aguiar e terminava na Régua. E dei por mim a pensar que a dificuldade dela talvez fosse a minha dificuldade em me organizar no meio de todos aqueles programas, que naquelas condições a divisão do programa por anos de escolaridade, por vezes, era mais empecilho do que ajuda. Então [não sem ajuda] procurei olhar os quatro programas como se fossem um só, na procura da ideia de um programa para cumprir em quatro anos. A esta aposta, o senso comum, que se refugia no conhecimento que lhe chega pela tradição, chamaria de “via verde” do 1º ao 4º, motivada por interesses ideológicos. São questões ideológicas que questionam a reprovação, como efeito na avaliação dos alunos? Também são. Foi a ideologia que me levou a questioná-la? Não. A minha escolha foi, em primeiro lugar, pragmática. Até porque, se fosse a ideologia a comandar, não chegaria sequer à pergunta; passava o aluno e pronto, e teria criado, de facto, uma autêntica via verde.
Pensar a aprendizagem por ciclos de aprendizagem, para além do 1º ciclo, não é tarefa fácil.** E, pela manifestação de vontades a que assisto, não vislumbro a possibilidade de procurar alternativas nos sistemas educativos que, parece, resolveram ou estão em vias de resolver o problema. Continuo a ouvir dizer que Portugal não é a Finlândia ou um qualquer outro país mais bem posicionado nestes campeonatos***. E não é de facto: nesses países vivem os que lá vivem; não são portugueses os que por lá moram; como não são portugueses os seus políticos e, já agora, os seus professores.
 
Daniel Lousada
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* Ana Benavente, usa esta expressão, referindo-se aos exames nacionais.
** A monodocência é de grande ajuda neste caso. Daqui a minha estranheza perante tanta hesitação na criação de um 1º Ciclo de seis anos.
*** Acho que a questão não passa por olhar unicamente quem está mais bem posicionado neste ou naquele ranking, mas por olhar as respostas que os diferentes sistemas propõem para responder aos problemas com que se vão confrontando. Até porque, nestas coisas dos campeonatos, a história tem-nos ensinado que ninguém é campeão eternamente. As circunstâncias mudam e ou as instituições respondem à mudança ou ... ...

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Pedagogia: Tudo menos certezas

Na prática pedagógica, apoio-me nas «minhas certezas», sem a certeza que o são, e caminho a partir delas como se fossem certezas de facto. Umas vezes, chego a bom porto; outras, verifico não ser o caminho desejado, antes mesmo de concluída a jornada, enquanto que noutras, depois de concluída, não me reconheço no lugar que encontro. Mas sei que a (in)certeza tem de ser certeza, no instante de iniciar o caminho, não esquecendo que com tanta incerteza nas certezas que me apoiam, nada me é dado por garantido: «Agir na urgência, decidir na incerteza», diz Philippe Perrenoud.
Nesta matéria, como em tantas outras, as minhas [nossas] certezas assentam nas certezas passadas, no que deu certo ou errado, portanto: nas certezas do conhecimento produzido pelas diferentes áreas do saber, sempre provisório, em que a pedagogia se sustenta. Eis, então, o desafio a que permanentemente me imponho, algumas vezes [se não muitas] sem grande sucesso, confesso: procurar a razão dos meus actos, sem desejar, à partida, ter razão! Porque, como o acto pedagógico é irrepetível, nunca igual, não posso presumir que o gesto conseguido no passado, se repetido, seja conseguido no futuro. E no entanto, como tantos outros, presumo, naquele instante e apenas nele, em que inicio o caminho! E sigo até onde a razão, que sustenta as minhas (in)certezas, me permite seguir. «O meu princípio foi sempre do Beckett: “falhar... falhar sempre, mas cada vez melhor”. Porque, ao fazer apenas pela certa, amarrado ao medo de falhar, o resultado do meu trabalho sabe a pouco» – diz Luís Goucha.* Sabe a pouco o resultado do seu trabalho como saberia o meu e o das crianças que trabalhassem connosco.O fascínio do trabalho pedagógico está aqui: não na incerteza que por vezes me faz vacilar, mas na certeza de que nunca é o fracasso que espreita; na certeza da oportunidade, sempre renovada, de novos caminhos, a partir do ponto de chegada, que até pode ser um engano, fruto de um erro cometido. Sem certezas absolutas, há apenas certeza quanto baste, para não ficar paralisado, sem reacção. E, para início das tarefas, em que quotidianamente me envolvo, isso basta. Tem de bastar!
Por tudo isto, e porque ainda fascinado pelo trabalho pedagógico, irrito-me tanto com tanta certeza que nos invade: com a certeza colocada, por exemplo, na «bondade» das rotinas que, hoje em dia, nos contamina [horários rígidos, com tempos marcados para cada disciplina, e toda uma cultura de gestão, que obriga a fazer tudo e nada, obcecada pelo controlo administrativo], e que «provém de uma organização do trabalho que realmente só permite tratar dos problemas mais padronizados e condena a viver com os outros, habitado pela sensação de que seria possível fazer algo positivo se»** a razão que sustenta esta organização burocrática não fosse um elástico que não pára de esticar.

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* Numa das nossas muitas conversas
** Philippe PERRENOUD, Agir na urgência, decidir na incerteza. Porto Alegre, Artmed, 2001: p. 85.