quinta-feira, 30 de abril de 2020

Depois do vírus, voltará a escola ao que era?

François Dubet
Versão em português de Luís Goucha [LER EM FORMATO PDF]

Imaginemos que muitos alunos pensam que as relações pedagógicas virtuais, com os seus professores, foram mais cordatas e mais singulares... Imaginemos que é possível dar aulas de outra maneira. A acontecer, isto não conduziria ao encerramento das escolas, bem pelo contrário: poderia abri-las, ainda mais, para formas de trabalho inovadoras, capazes de lhes outorgar uma maior vocação educativa.
(...)
Imaginar no que se poderia transformar o formato escolar, depois deste confinamento, é, decididamente, trazer um certo optimismo para o debate, sem que este se transforme, no entanto, num utopismo.

domingo, 19 de abril de 2020

A "Escola do Depois"... Com a "Pedagogia do Antes"?

Philippe Meirieu
Versão em português de Luís Goucha [PASSAR PARA FORMATO PDF]

Se ainda houvesse dúvidas, relativamente ao carácter ridículo das profecias moralizadoras sobre o nosso futuro, a crise que atravessamos tê-las-á dissipado. É claro que toda a gente concorda que “haverá sempre um antes e um depois”, mas ninguém sabe como será esse “depois”. As análises multiplicam-se para realçar o carácter sem precedentes do momento que atravessamos, para mostrar que isso põe em causa todos os nossos hábitos e exige uma verdadeira revisão dos nossos sistemas de pensamento e de decisão. Dizem-nos que a escolha foi feita pela protecção da saúde de todos, em vez do crescimento económico para beneficio de apenas alguns. Dizem-nos que, amanhã, iremos revalorizar as profissões ligadas às humanidades, necessárias à nossa sobrevivência colectiva, em vez de continuar a exaltar o “primeiro a cortar a meta” e a promover os “vencedores”. Explicam-nos que chegou o tempo da partilha dos bens comuns, o que nos permitiria, finalmente, não “morrer arrastado pelas águas geladas do cálculo egoísta” de que falava Marx… Gostava de acreditar nisso. Queria ter a certeza que nos dirigimos, à escala planetária, para uma maior solidariedade entre pessoas e nações, por mais justiça social, por uma maior valorização das grandes questões ecológicas. Mas, na verdade, acredito que nada está decidido. ...  

domingo, 12 de abril de 2020

Desfiando a leitura e a escrita com jovens, em tempo de confinamento

Maria dos Reis
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O título deste apontamento prende-se com a forma de sa­bo­rear este meu estado de “avosice” e a interação com o meu neto, em tempo de confinamento, com os vídeo jogos bem à mão e os amigos a solicitar a sua presença nos desafios. Nesta conjuntura, os momentos on-line adquiriram outra importância no que diz respeito ao convívio entre pares; é preciso, no entanto, reinventar rotinas, criar momentos de pesquisa e conhecimento. E aqui, o encontro com o prazer na leitura, na organização e partilha da informação, é fundamental.

Não basta que a TV passe vídeos motivacionais, sugerindo tirar a poeira aos livros que exis­tem [ou não] em casa. Os hábitos de leitura não são, em geral, práticas que grassem, faltam livros em grande parte das casas, e o modo escolar de abordá-los, em leituras obrigatórias, é, no mínimo, questionável. Em tempo de pandemia, podemos ter mais dificuldade em aproximarmos os livros de cada um de nós.

Com tantas incertezas e opiniões, o melhor é jogar em dois tabuleiros. Sem abandonar as questões do currículo obrigatório, mas relativizando-as. É importante ir mais além, ao que realmente nos interessa, procurando matérias que nos emocionem, nos comovam, nos transportem para outras realidades. Pode ser sobre temas “mais formais”, como Literatura ou História, ou mais “descontraídos” [desporto, culinária, música, curiosidades…], sem esquecer nunca os afectos. Impõe-se uma intervenção que mobilize, que evite deixar os nossos alunos dependentes dos manuais obrigatórios e “caderni­nhos de exercícios”.

É sobre estas premissas que estabeleci acordo com o meu neto. Para responder à ingenuidade própria da idade dele, e ao nosso impulso irresistível para opinar sobre tudo, propusemo-nos conversar sobre assuntos que nos interessam.

Assim, à noite pelo telefone, partilhamos entre outras coisas, os livros que estamos a ler, as pesquisas que fizemos.

Como tópicos de abertura deste ciclo [chamemos-lhe assim], ele optou por figuras ligadas à política actual – eu escolhi artistas ou pensadores modernos.O próximo passo será escrevermos em conjunto e via videoconferência sobre o que aprendemos um com o outro nesta nova experiência.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Como vai ser a escola, quando a escola voltar?

IMAGINANDO SER PROFESSOR, outra vez
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Divagações a partir do poema 
“Para além da curva da estrada” 
de Alberto Caeiro, que me tem 
acompa­nhado nestes dias.

Não sei como vai ser a escola, quando a escola voltar. “Não sei e tenho raiva de quem sabe”!, como é uso dizer-se por cá. Quem quiser saber que procure, desde que me mantenha confortavelmente à distância. De momento, estou ocupado a percorrer a “estrada antes da curva”, como Alberto Caeiro 1. Se estou longe ou perto da curva, não sei! - ainda não me foi dado ver curva nenhuma, quanto mais o que virá depois dela: quando lá chegar saberei. Então, do que preciso é de compreender a escola hoje, como é amanhã! Mas amanhã mesmo! Não o amanhã poético, indefinido, longínquo…, mas o dia que sei ter pela frente ao acordar – Hoje, o que menos me interessa são perguntas que paralisam. Não quero, sinceramente, que me digam o que virá depois disto, porque venha o que vier não será o que me disserem que vem:Talvez haja um poço, e talvez um castelo, e talvez apenas a continuação da estrada” 2, não sei!

Há quem diga, numa expressão que me soa [por culpa minha, certamente] a treina­dor de bancada, que tenho “de fazer ‘reset’ 3 daquilo que acho que é ensinar”! Para passar a achar o quê? [Ensinar será sempre - dêem as voltas que derem ao conceito - fazer com que o outro aprenda!] Para já, não tenho mais que focar-me na estrada antes da curva a que chegarei quando chegar, a conduzir o veículo que melhor se adaptar à estrada e ao meu tipo de condução. Talvez faça falta um curso de condução intensivo, para garantir o risco mínimo de despiste, talvez! A mim, sobretudo, falta a paciência para penduras irritantes a gritar-me ao ouvido: olha a passadeira, cuidado que o carro da frente abrandou,… tra  ááá  va … –  Nestas alturas, apetece-me quase sempre dizer: salta tu para aqui, que eu vou para aí berrar.

Nos tempos mais próximos, não há como “pôr novamente em estado conveniente” o estado a que a escola chegou. Não há, ponto! Então, distancio-me dela. Não para me agarrar a outra forma de escola, mas para colocá-la em suspenso, até melhores dias!

Tão cedo não quero saber de escola [que está onde está], mas quero, isso sim, manter-me ligado aos meus alunos: 4 procurar saber como estão, quais as suas preocupações e dizer-lhes o que me preocupa; perguntar-lhes como posso ajudá-los a “passar o tempo” e dar-lhes conta dos meus planos: os encontros que quero agendar, na plataforma que escolhermos; falar dos livros que tenho para ler com eles, dos livros que eles, talvez, possam querer ler comigo; falar da correspondência que vou ter com todos e com cada um deles; dos desafios que estou a pensar colocar no grupo privado que temos na net, …  e o mais que vier das conversas que tivermos entre nós 5

É claro que não tenho como fugir do “funcioná­rio” que, sempre diligente, me vai en­cher a caixa de correio [electrónico], com toda a sorte de impressos, a pedir-me in­for­mações sobre coisas que, porque propositadamente deixei passar ao lado, não faço. Por isso, se tiver de burlar…, com toda a criatividade de que for capaz, burlo! 6

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1 In Poemas inconjuntos
2 Alberto Caeiro, ibidem
3 Ilídia Cabral [prof. Faculdade de Educ. e Psicologia da U. Católica], “Os professores têm de fazer ‘reset’ daquilo que achavam que era ensinar”. In TSF, Rádio NotíciasResetRepor, voltar a pôr; colocar de novo; pôr de novo no seu devido lugar; pôr novamente em estado conveniente. In Dicionário Inglês/Português, Porto Editora
4  Sem currículo estrito ou avaliações sumativas, a opção é de que a escola deve manter uma relação cultural de largo espectro”. Francisco Teixeira
5 No fim, quem sabe, talvez, tudo isto seja o início de reset, daquilo que eu acho que é ensinar. Ou não é início nenhum, e tenha achado sempre que ensinar passa por aqui.
6 A lealdade do professor não pode ser com o livro de sumários, nem com relatório de aula, nem com coisas parecidas. A lealdade dos professores é com as crianças. Portanto burlem o que puderem. Rubem Alves

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Resgatar a pedagogia, precisa-se!

Daniel Lousada 

É urgente o regresso dos pedagogos do exílio, onde se encontram esquecidos

É simples ter a energia que leva à acção”, diz Ulrich, personagem de Robert Musil.1 A acção da generalidade dos professores parece comprovar isso mesmo: foram rápidos nas primeiras respostas; nalguns casos, anteciparam mesmo orien­tações, que a tutela enviou mais tarde para as escolas. Mas, como diz a mesma persona­gem, fica por fazer o mais difícil: “buscar e encontrar sentido para ela”. E continua mais à frente: Na verdade, não devíamos exigir qualquer acção uns aos outros, mas criar primeiro condições para a sua exequibilidade.” Pelo que é interpelado por Agathe, a outra personagem que participa no diálogo: “E como é que íamos fazer isso?”2 Ora, é nesta tensão entre a acção e o seu sen­tido, que assenta a reflexão pedagógica: a acção educativa leva à reflexão e a reflexão à acção. En­tão… “fa­lhar... falhar sempre, mas cada vez me­lhor”.3
Agir na urgência, decidir na incerteza”, diz por sua vez Perrenoud,4 porque, em educação, não é possível parar à espera das condições óptimas para agir: o acto educativo, como defende António Nunes,5 é sempre ir­repetível, nunca igual, assente, quando muito, em certezas provi­só­rias; e, sem certezas absolutas, temos apenas certeza quanto baste, para não ficar paralisado, sem acção. Depois de, num primeiro momento, em que a palavra de ordem foi estar ligado, terem lançado mão de todos os instrumentos capazes de manter a ligação, é preciso que os professores se mobilizem, agora, na procura do sentido do trabalho escolar, que desenvolvem para os seus alunos e com eles [promover este “com”, fundamental no processo educativo, é, no contexto actual, um grande desafio].

Nesta altura confusa (…) em que as tecnologias (…) se tornaram num qualquer deus que ilumina todo o sistema educativo, teremos, imagino, aberto a porta a tentativas poderosas, de interesses múltiplos e de origens e objectivos muito diferentes, a um movimento pandémico destes instrumentos. (…). O problema, pela sua natureza, e que é novo, é o seu poder e a forma como este será incorporado nas práticas e qual o seu enquadramento pedagógico (…)”.6 Por isso, resgatar a pedagogia, nunca foi tão importante: só ela nos oferece os recursos, de que pre­cisamos, para nos opormos não só aos treinadores de bancada, que proliferam um pouco por todo o lado, como – mais importante – opormo-nos aos “Pseudo-pedagogos em­pre­sariais, de que fala Sérgio Niza, aquela “espécie de seres para o lucro, represen­tan­tes de uma “peda­go­gia de negócio, que invade a escola pública.7 Porque, desengane-se quem acha que, passada a tempestade, consegue fechar a porta, agora escanca­rada, a interesses privados: estes tudo farão para mantê-la aberta à expansão do seu negócio.8 Quando muito, será possível impor limites, regular o trânsito, atra­vés do neces­sário enquadramento pedagógico das práticas, de que fala António Nunes.
Aqui a urgência da vigilância pedagógica. Pelo que nunca foi tão urgente, o regresso dos pedagogos do exílio, onde se encontram esquecidos.
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1Robert Musil, in “O Homem sem Qualidades” – vol. 2, Pu­blicações Dom Qui­xote, Lisboa, 2008: p. 103.
2Idem, p. 104.
3. Samuel Beckett.
4. Philippe Perrenoud, Art­med, Porto Alegre, 2002.
5. E, portanto, tudo o que acontecer no dia seguinte, não pode ser uma cópia de qualquer coisa que deu resul­tado no dia anterior” [Entrevista concedida à Gondomar fm, 16.02.2017].
6. António Nunes, na sua página do facebook, 28 de Março de 2020.
7. Uma pedagogia que “traiçoeiramente, transforma, esses empresários, em educadores do povo e promotores da inclusão” [Sérgio Niza, Universidade de Évora, 2013].
8. Agradecer a solidariedade, sim. Mas não tenhamos a in­genuidade de esquecer que, muita dela, esconde oportunidades de negócio.